Instrumento
Reivindicações | Guitarra Baiana - Reivindicações à fama |
O fato de que o primeiro protótipo da guitarra baiana, conhecido como pau elétrico ou cavaquinho elétrico foi concebido e construído em Salvador, Bahia, na década de 1940, dentro de um intervalo de tempo em que também surgiram vários ancestrais importantes da guitarra elétrica nos Estados Unidos, como o lendário Log Guitar de Les Paul de 1941 e as guitarras havaianas de Fender e Kauffman de 1944/45, continua alimentando 'boatos' acerca de que a guitarra elétrica moderna pode ter sido, ou foi, inventada no Brasil. Entre as maifestações mais conhecidas dessa “reivindicação” consta a letra da música Viva Dodô e Osmar de Moraes Moreira & Zé Américo, um sucesso nos trios elétricos do Carnaval da Bahia dos anos 70.Moraes Moreira & Zé Américo Dodô, Dodô Dodô, Dodô Antes do Gringo, a guitarra ele inventou Osmar, Osmar Osmar, Osmar O carnaval ele veio triletrizou Logo depois da guerra Na minha terra Bahia Dois baianos sem compromisso Descobriram que o cepo maciço Evitava o fenômeno da microfonia E assim, com o nome de “pau elétrico” Nascia um dia, a guitarra na Bahia, Bahia, Bahia
A música de Dorival Caymmi, aquela que diz que em Salvador existe uma
igreja para cada dia do ano [1], cuja letra acabou sendo
levada a sério e divulgada pelos guias de turismo da cidade, nos
serve com um exemplo do poder da folclore e da poesia momesca. No caso
do pau elétrico, o "problema" com uma tal retórica seria que ela pode
chegar a distrair o nosso olhar de outras reivindicações a fama,
válidas por sinal, da guitarra baiana, e também a distorcer a nossa
percepção dos grandes comprimentos culturais de Dodô Nascimento e
Osmar Macêdo: Pois, o lance principal não é se Osmar e Dodô inventaram
a guitarra elétrica “antes do gringo” ou não, é que eles o
fizeram sem ele. Desenvolveram um novo instrumento musical inteiramente
funcional, por conta própria e com recursos caseiros, inventarem um novo
estilo musical para se tocar nele, e criaram um palco móvel, equipado com altofalantes e um gerador, para se apresentar. Dessa forma, criaram uma singularidade na musica
popular brasileira, pois tudo isso já se encontrava consolidado e divulgado antes que os primeiros modelos de guitarras
elétricas importadas chegassem às lojas brasileiras, e antes do Rock'n Roll (como gênero próprio) tomou forma nos Estados Unidos.
Isso dito, podemos revisar as outras reivindicações a fama da guitarra baiana, passo à passo e mais detalhadamente, até abordar uma que é bem interessante e normalmente não vem sendo citada.
Quanto à data da chegada no Brasil da guitarra elétrica como tal, com caixa
acústica oca ou não, ela não é clara, e as informações ao respeito
variam muito. Entre os candidatos mais remotos temos o caso
de Henrique Brito (1906-1935), conhecido compositor e guitarrista
(com João de Barro e Noel Rosa, entre outros) da década de 1920, e
membro da banda do saxofonista Romeu Silva, o 'Olímpico Brasileiro' que
representou Brasil nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1932. Brito
permaneceu na Califórnia quase um ano e retornou ao Rio de Janeiro em
1933 com um violão elétrico, alegando que o instrumento havia sido
construído sob a sua orientação em San Francisco por um fabricante de
guitarras que depois teria patenteado o mesmo [2].
Quanto ao uso de um "corpo maciço" como um método para combater o problema da microfonia ou “feedback”,
reduzindo a câmara acústica do instrumento (ou até eliminando ela por completo, do jeito que resta apenas uma estreita “espinha
dorsal”) remonta pelo menos ao ano 1923, no protótipo de uma viola elétrica,
desenvolvido por Lloyd Allayre Loar, pela Gibson. Este
instrumento compartilha todas as características relevantes com o
modelo acima à esquerda, um violino elétrico patenteado por Loar em 1933 (notar a ausência completa da caixa acústica). Loar, um aclamado
especialista em construção de bandolins acústicos, deve ter tido os
seus motivos, talvez relacionados à preservação de determinadas
características sonoras, para não aplicar essa mesma abordagem nos
bandolins e violões eletrificados que estava desenvolvendo na mesma época. Poucos anos depois, em 1941, Les Paul iria fazer justamente isso com o
seu Log Guitar (extrema direita).
Os fabricantes de guitarras norte-americanos pré-1940 tinham, então,
uma clara percepçõao tanto do problema da microfonia como também do seu remédio.
Muitos dos primeiros modelos experimentais de instrumentos elétricos
tinham corpos inteiramente sólidos, como o protótipo do Frying Pan de
Rickenbacker & Beauchamp de 1931, cujo corpo de madeira maciça
supostamente veio de uma cerca no pátio por trás da oficina. Os
experimentos conduzidos por Beauchamp na invenção do captador do Frying Pan, envolvendo o uso de uma única corda metálica prendida na bancada de
trabalho, tiveram início já por volta de 1926. O fato que muitos modelos
de produção em massa do mesmo período, por sua vez, não teriam sido totalmente sólidos, se
devia mais a considerações relacionadas a inconvenientes da época, como o custo dos materiais, técnicas de fabricação e
peso final. O modelo Bakelite Spanish da Electro String (Rickenbaker)
de 1935 (acima, centro), por exemplo, tinha um design em
plástico duro (bakelite) que eliminava a microfonia com sucesso, mas, embora nem
sendo totalmente sólido, ficava ainda tão pesado que não podia ser tocado sem
um suporte.
Por algum motivo não
muito claro, os desenvolvedores de instrumentos norte-americanos deixaram de aplicar, até a década de 1950, o princípio do corpo sólido
já em uso com as suas guitarras também aos seus bandolins elétricos.
Assim, importantes “dinossauros” de bandolins elétricos anteriores as
décadas de 40 e 50, como o modelo da Electro String (Rickenbacker)
de 1931, o ViVitone de Loar patenteado em 1933, o protótipo da National Resophonic
de 1934, assim como modelos pós-1935 da Gibson (EM), da National (Silvo) e
da Vega, seguem todos um design tradicional e tem corpos ocos. (na foto, o interior de um lapsteel modelo EH-150, da Gibson, de 1939).
O primeiro bandolim elétrico de corpo sólido norte-americano
só data de 1952, um modelo de 5 cordas simples (afinado
Do-Sol-Re-La-Mi), construído por Paul Bigsby para o bandolinista
Tiny Moore (que, por sua vez, antecipa a versão de 5 cordas da
guitarra baiana idealizada por Armandinho Macêdo no início dos 1980). O
primeiro bandolim elétrico norte-americano de corpo sólido com 4 cordas duplas foi o modelo Electric Florentine (EM-200) da Gibson, de 1954 (à direita, preto), seguido pelo famoso Mandocaster (extrema direita) de 4 cordas
simples (inspirado na guitarra elétrica e muito semelhmante à guitarra baiana) produzido a partir de 1956 pela Fender, e modelos de 4 e 5 cordas simples e 4
cordas duplas (5001, 5002, e 5003, respetivamente), construidas pela Rickenbacker entre 1958 e 1965.Entre as vantagens de Dodô e Osmar em realizar um bandolim elétrico de corpo sólido, consta a despreocupação da dupla com a necessidade de preservar, no processo da amplificação, as carateristicas acústicas do bandolim. Enquanto os norte-americanos queriam ampliar o som das notas curtas de bandolins de cordas duplas, Dodô e Osmar procuravam, além de um som bem alto, notas compridas tocadas em cordas simples ("como um sino"). Dessa forma, chegaram a definir o conceito dos modelos norte-americanos "Tiny Moore" (Bigsby, 1952) e “Mandocaster” (Fender, 1956), ámbos com cordas simples, já na década de 40: o pau elétrico, o "cavaco-caster" de Salvador da Bahia. Concluindo, como o modelo "Tiny Moore" de 52 e o "Mandocaster" de 56 pertencem á família dos bandolins (a despeito de possuírem cordas simples e não duplas) o mesmo aplica-se também para o pau elétrico. E isso faria, em ausência de exemplários norte-americanos das décadas de '30 e '40, do protótipo elaborado por Dodô e Osmar na década de 1940 o mais antigo bandolim elétrico de corpo sólido conhecido. Viva o "cavacocaster" de Dodô e Osmar! NOTAS[1] 365 Igrejas Dorival Caymmi 365 igrejas a Bahia tem Numa eu me batizei Na segunda eu me crismei Na terceira eu vou casar com uma mulher que eu quero bem Me nascer um bacuri Vou me embora pra Bahia, vou. Vou batizar no Bonfim Mas se for me parecendo Que os meninos vão nascendo Por cada uma igreja que tem lá Sou obrigado a comprar minha Passagem pra voltar pra cá, não é.... Se depois que eu me casar Me nascer um bacuri Vou me embora pra Bahia, vou. Vou batizar no Bonfim Mas se for me parecendo Que os meninos vão nascendo Por cada uma igreja que tem lá Sou obrigado a comprar minha Passagem pra voltar pra cá, não é.... [2] GOES (1982)
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