Instrumento
Pau Elétrico | Pau Elétrico |
.
A atual guitarra baiana de cinco cordas evoluiu a partir do pau elétrico ou cavaquinho elétrico, construído na década de 1940 [1,2,3] por Dodô Nascimento e Osmar Macêdo, em Salvador. Consistia em um braço de um cavaquinho montado sobre um pedaço de jacarandá, um captador magnético caseiro e quatro cordas afinadas em quintas (Sol-Re-la-Mi, ao modo do bandolim), resultando em um cruzamento eletrificado entre dois instrumentos acústicos, com uma 'caixa' completamente sólida.
Esta combinação cumpria com as exigências dos seus criadores, que tinham o custume de tocar os seus cavaquinhos afinados como bandolim [4]. Simultaneamente, a mesma abordagem foi usada para criar uma versão de 6 cordas do pau elétrico, com o braço e afinação de um violão [5]. Dodô e Osmar nunca registraram a sua invenção, e apenas no final dos anos 1940 tomaram conhecimento da existência de guitarras elétricas de corpo sólido feitas nos Estados Unidos [6].O fato que a guitarra baiana evoluiu em um contexto completamente "nativo" é de considerável importância para a história da música popular da Bahia. Assim, o instrumento disfrutava de uma vantagem em relação a modelos e estilos de guitarra elétrica importados posteriormente, o que muito ajudou a sua individualização musical. A circunstância do pau elétrico ter surgido no mesmo período de tempo que alguns importantes ancestrais da guitarra elétrica nos Estados Unidos (como o Log Guitar de Les Paul de 1941 e as patentes arquivadas por Leo Fender e Doc Kauffman em 1944), chegou a inspirar teorias que a guitarra elétrica moderna pode ter sido inventada no Brasil. Embora colocar as coisas desta maneira seria rebuscado, é possível afirmar que o pau elétrico, considerando a sua afinação de bandolim de junto ao fato que modelos de bandolins elétricos de corpo sólido não apareceram nos Estados Unidos até os anos 1950, pode ser visto como o mais antigo bandolim elétrico de corpo sólido conhecido. A exposição itinerante Corredor da História, organizada com apoio da família Macêdo, assim como diversos documentários sobre a história do trio elétrico, exibem o modelo da foto à direita como exemplo de um pau elétrico criado na década de 1940. Observe-se que a cabeça do instrumento não está localizada no final do braço (como é comum na maioria das instrumentos de corda) mas, no lado oposto da caixa, cumprindo ao mesmo tempo a função de cavalete. Isso lhe confere uma aparência muito moderna, lembrando os modelos "headless" dos baixos e guitarras desenvolvidos por Ned Steinberger na década de 1970. Além do posicionamento diagonal do captador do instrumento, lembrando o Chapman Stick (também da década de 70), chama atenção também o seu headstock unilateral; ou seja, a assimetria da sua cabeça, com todas as tarraxas localizadas no mesmo lado, uma inovação normalmente atribuída aos instrumentos desenhados por Paul Bigsby e Leo Fender, a partir de 1947. Infelizmente, não existe documentação fotográfica original anterior à década de 1970 sobre este modelo. É importante notar neste contexto que uma das poucas fotos históricas do pau elétrico original, divulgada no documentário O Caminhão da Alegria da TVE de 2010 (ver foto ao topo da página), mostra um modelo bastante diferente, sem o formato "headless" do braço, e sem "headstock unilateral", lembrando mais o famoso "Frying Pan" de Rickenbacker da década de 1930, como se vê na ilustração gráfica de uma matéria do
Jornal Nacional da Globo sobre o trio elétrico de 2010
(foto acima, com o Frying Pan no lado esquerdo) [1]. Fotografias históricas do início da década de 50 também
mostram apenas paus elétricos com cabeça simétrica (duas
taraxas em cada lado) e localizada no final do braço.
Portanto, a data do modelo do pau elétrico da foto
colorida não é clara. Caso que fosse realmente da década de 1940, ou uma réplica com características idênticas, o seu design anteciparia os modelos de Ned Steinberger em quase quatro décadas, e o do chamado scrolled headstock dos instrumentos de Bigsby e Fender, em pelo menos alguns anos.NOTAS
[1] Iconografia: A primeira foto é do filme O Caminhão da Alegria da TV Educadora (2010), um documentário sobre a historia do trio elétrico, com participação de Armandinho Macêdo, Aroldo Macêdo, Moraes Moreira, Fred Dantas e Gilberto Gil, entre outros. A foto colorida do pau elétrico é da segunda edição do livro "50 anos do Trio Elétrico", de Fred GÓES (2000). A ilustração gráfica comparando o pau eletrico (dir.) com o Frying Pan (esq.) foi elaborada por Marcia Táu e Tatiana Cardoso, é de uma matéria da coluna Bau da TV Brasileira sobre a história do trio elétrico, apresentada por Nelson Motta no Jornal Nacional em fevereiro de 2010. A quarta foto mostra Dodô Nascimento, Osmar Macêdo e Temistocles Aragão no início da década de 1950, é da matéria Segredos da Folia, da TV Bandeirantes, do ano 2000. |
| Home |
| Instrumento |
| História |
| Blog |
| Colunas |
| Músicos |
| Luthiers |
| Discografia |
| Glossário |
| Mídia |
| Contato |
| Armandinho Macedo em Armandinho Convida – 10/02/2010domingo, 07 de março de 2010 | Marcus
Estou começando com esse evento, que não foi o primeiro que cobri, por razões que acredito serem simples de compreender. Muito... + leia mais |