| Anos 1940: a Dupla Elétrica e o Pau Elétrico |
Osmar Álvares Macêdo (22 de março 1923 - 30 de junho de 1997, à direita) e Adolfo Antônio Dodô Nascimento (10 de novembro 1920 - 15 de junho de 1978) faziam parte do cenário musical de Salvador desde os anos 1930. Dodô havia ajudado na formação do conjunto Três e Meio, do lendário Dorival Caymmi e, após da saída de Caymmi para o Rio em 1938, tinha reformado a banda, chamando também Osmar [1]. Por volta de 1942 [2], os amigos assistiram a uma performance do violonista carioca Benedito Chaves -'Benedito Chaves e seu Violão Elétrico'- apresentando um violão acústico oco equipado com um captador como a grande atração, o que os inspirou a construir seus próprios captadores. -'Ele [Chaves] ia trazer pra Bahia o famoso violão elétrico que ninguém conhecia – eu mesmo pensava que tocasse sozinho, por ser elétrico.[...] O Benedito Chaves então trouxe o violão elétrico e nós fomos todos assistir o show dele no Teatro Guarani, foi uma apoteose, foi uma beleza! Mas dava aquele fenômeno de microfonia, apitava (pii, piii...). Incomodava. Ele parava, mudava a posição do amplificador, diminuía o volume pra corrigir esse defeito. O. MACÊDO 1995, apud PAULAFREITAS (2005) Dodô e Osmar procuravam Benidito Chaves, que permitiu a eles conferirem a construção e a parte elétrica do instrumento. "[...] Benedito foi muito receptivo, nao se fez de rogado, ligando a aparelhagem e permitindo que nós experimentássemos o tal violão. Como Dodo era radiotécnio, técnico em eletrónica, não se limitou em observações superficiais, pesquisou tudo aquele mecanismo nos menores detalhes. Já no dia seguinte, dava tratos a bola na construção de um amplificador e de um captador exatamente iguais aos que Benedito havia usado no concerto. Em poucos dias, havia fabricado um violão para ele, igualzinho ao de Benedito Chaves, e um cavaquinho para mim. Não se tinha resolvido o problema da microfonia, e aquilo não nos satisfazia, mas, mesmo assim, estava criada a 'Dupla Elétrica'....." O. MACÊDO 1979, apud GOES (1982, 2000) Pouco tempo depois, os dois começaram a se apresentar com seus novos instrumentos, chamando-se "Dupla Elétrica" [3], tocando um repertório de chorinhos e paso-dobles espanhóis. Durante mais de um ano [4] tiveram que enfrentar os efeitos de microfonia, impossibilitados de tocar com o volume no máximo, e obrigados a mudar de posição durante a performance [5]. Após de Osmar notar que a microfonia diminuía quando se encheu o instrumento com uma toalha ou cobria sua frente com o braço esquerdo, acabaram dando de cara com o princípio do corpo sólido. "Então a gente... eu abraçava assim o instrumento, parava a microfonia. Eu deixava o instrumento à vontade, aí dava a microfonia. Aí nós vimos que era a caixa acústica do instrumento que provocava a microfonia. Daí veio a idéia de usarmos o pau, um pedaço de pau maciço, como está aqui, e botar as cordas em cima do... estendidas, como fica no instrumento, porém sem caixa acústica. Aí não dava som nenhum, o som era muito baixo, mas quando ligava no amplificador, dava um som estridente, na altura total. Abria o amplificador todo, e não dava microfonia. Estava descoberto o problema." O. MACÊDO, 1995 apud PAULAFREITAS (2005) "Um dia ele [Dodô] resolvia de esticar uma corda de violão sonbre a sua bancada de trabalho. prendendo-a nas extremidades com dois parafusos e colocando, sob a corda, um microfone preso à bancada, para testar o efeito. Quando ele ligou o microfone, você não pode imaginar, rapaz.... Parecia um sino, um som limpo, perfeito. Estava descoberto o princípio. O. MACÊDO 1979, apud GÓES (1982, 2000) A próxima versão já foi mas sofisticada: Osmar visitou uma loja de música, a Primavera na Praça da Sé, de Salvador (a loja ainda existe), e pediu um violão e um cavaquinho. Logo tirou os braços bem na frente do vendedor, dizendo que isto era tudo o que precisava [6]. De volta para a oficina, Dodô montou cada braço numa tábua de madeira, colocou as cordas, ligou o som, e assim nasceu o pau elétrico [7],[8]. Em 1949, quando suas performances já iriam levá-los até a ilha de Itaparica, etc., tinham começado a alimentar o sistema de som do carro com baterias [8]. Um tempo depois, esta tecnologia móvel iria desempenhar um importante papel na invenção do que agora é conhecido como o trio elétrico ...NOTAS
[1]
Quando Caymmi deixou a Bahia em 1938 para continuar carreira no Rio de Janeiro, o conjunto dividiu-se. Preservando o nome Três e Meio, Dodô fundou uma nova banda que incluía Druvaltério Carvalho, Milton Lima, Rupiara Ferreira Santos, Reginaldo Silva, Luizinho da Flauta, e Osmar Macêdo (GÓES, 1982). Para maiores informações, ver também o artigo Conjunto Três e Meio em nosso glossário. [2] GÓES (1982, 2000) e PAULAFREITAS (2005), variam quanto à data do show de Benedito Chaves em Salvador. De acordo com GÓES (1982, 2000), a performance aconteceu em 1941. De acordo com ANAFREITAS (2005), se deu em 1943. Ambos autores baseiam-se em entrevistas com Osmar Macêdo. Também, um grande número de textos e artigos, sem citar fonte alguma, mencionam 1942 como o ano da performance. [3] Com a eletricidade ainda sendo considerada uma espécie de milagre em grande parte do Brasil, o termo tinha uma conotação humorística, pois brincava com a equivalência dos termos elétrico, magnífico e milagroso. [4] "Durante mais de um ano Dodô e Osmar tentaram eliminar a microfonia, sem resultado. [...] A solução foi descoberta após uma das muitas experiências de tentativa e érro." Ayéska PAULAFREITAS (2005).
[5]
No mesmo período (42/43), Dodô e Osmar tinham contato freqüente com militares dos Estados Unidos estacionados na Base Naval vizinha a Salvador, onde foram convidados a tocar. "...nos fomos muitas vezes convidados para tocar nos bailes dos americanos na base naval. Era o maior sucesso, tocávamos Tico Tico no Fuba, chorinhos, etc. Foi nessa época, inclusive, que romamos conhecimento com duas novidades: a primeira delas foi o assovio, gritos e exclamações como manifestação de agrado. Eu e Dodô, depois que nos apresenstamos por primeria vez aos americanos, pensávamos ter sido um fracasso, pela reação exaltada da plateia, mais foi-nos explicado que aquilo era aplauso. A outra novidade era a Coca Cola. [...] A primeira vez que eu vi Coca Cola foi em 43/44, num desses bailes de americano. Quando eu botei o primeiro gole na boca, foi correr pelo banheiro para cuspir fora aquela porcaria, parecia sabão aristolino." O. MACÊDO 1979, apud GÓES (1982) "Eu me lembro que em 1942 ou 1943, não estou bem seguro da data, mas enfim, no período da guerra, tinha muito americano por aqui, e e e Dodõ vimos um catalogo de uma empresa americana chamada Sears Roebuck onde estavam annunciados uns intrumentos elétricos. Havia um violão exatamente igual ao de Benedito Chaves, e ao lado da ilustração havia uma recomendação onde leia que, para evitar a microfonia, era necessário testar ângulos do aparelho e nunca abrir muito o volume. Isso prova que os americanos [os americanos] não conheciam ainda os instrumentos maciços que deram origem ao trio". O. MACÊDO 1979, apud GÓES (1982) Na segunda passagem, Osmar opina que as guitarras elétricas de corpo sólido não eram conhecidas nos E.U.A em 1942-43. Infelizmente, a declaração não revela em que momento ele e Dodô já tinham seus próprios instrumentos de corpo sólido prontos. [6] Uma versão dessa história contada por Armandinho: "Meu pai foi à loja Primavera, uma loja de música antiga da Bahia, e como ele queria só o braço e ia voltar de ônibus para casa, resolveu quebrar os instrumentos, o bojo do violão e o bojo do cavaquinho. Quebrava e brincava com o cara dizendo: "Esse instrumento é forte mesmo?" Começou a quebrar, acabaram chamando o gerente e a polícia. Disse que estava brincando mesmo e ia pagar porque só queria o braço. O dono da loja morreu há pouco tempo. Até então, ele contava essa história do maluco que saiu quebrando os instrumentos". A. MACÊDO (2002b) Entrevista com Musica e Tecnologia Online [7] Infelizmente, a data exata aqui não é clara. As fontes bilibiográficas principais sobre a guitarra baiana -GÓES (1982, 2000), e PAULAFREITAS (2005)- não mencionam uma data para a finalização do pau elétrico, e variam quanto datas complementares como o show de Benedito Chaves (ver nota 2), ambos apoiando-se em entrevistas com Osmar. Visto que Osmar e Dodô levaram um bom ano (ANAFREITAS, 2005, ver nota 4) após de ver o show de Benedito, para chegar a um protótipo de corpo sólido, o primeiro pau elétrico teria ficado pronto em algum momento entre 1942 e 1944 (deduzido, respetivamente, de GÓES 1982, 2000 e ANAFREITAS 2005, respetivamente). A partir de de 1944 (GÓES 1982, 2000) ou 1945 (Armandinho MACÊDO, 2002b, ver a nota 8) Osmar e Dodô se apresentaram com seus instrumentos elétricos maciços, animando bairros inteiros. Ver também o capítulo sobre pau elétrico na secção 'O Instrumento'. [8] "A partir de 1945 eles já tinham os instrumentos maciços elétricos e já davam grandes festas para quase um bairro inteiro. [...] Em 1949 eles experimentaram ligar em bateria. A. MACÊDO (2002b) Entrevista com Musica e Tecnologia Online [9] "Já viajavam para Itaparica para tocar. Resolveram colocar num carrinho e tocar no carnaval lá no bairro da Calçada, na cidade baixa. O som era aquela corneta metálica que amplificava. Os alto-falantes serviam para quem estava perto, as cornetas, eram para quem estava longe". A. MACÊDO (2002b) Entrevista com Musica e Tecnologia Online |
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