| Trés e Meio |
No início da década dos 1930, o jovem Dorival Caymmi (1914-2008) reune o seu irmão Deraldo Caymmi (tambor, surdo), seu amigo de infáncia Zezinho (José Rodrigues de Oliveira, bandolim e cavaquinho), Luis Rodrigues (irmão de Zezinho, pandeiro), para formar um quarteto vocal [1]. Os amigos frequentam a Guarani e a Milano, as principais casas de música de Salvador na época, em busca da novidades que vinham do Rio, do jeito que já sabiam cantar-as quando seriam divulgadas pelos rádios. Começam de se apresentar em programas de rádio, incicalmente na Radio Clube da Bahia, e depois também na Rádio Comercial da Bahia e na Radio Sociedade da Bahia. Tiveram sucesso, e havia vezes em que chegaram a tocar nas trés emissoras dentro de um único dia. Inspirado pelo grupo carioca Bando da Lua, Dorival Caymmi resolve 'montar um conjuntinho para o carnaval' [2]. chamado Trés e Meio, com um repertório abrangindo músicas de Noel Rosa, Francisco Alves, Sylvio Caldas, Aracy de Almeida, Carmem Miranda, Luiz Barbosa, Moreira da Silva, além de versões de composições internacionais. Dai em diante, o Conjunto Regional Trés e Meio anima festas e toca em eventos, como o da coroação da rainha de carnaval da Associação dos Empregados de Comércio, e aparece em notas de jornais [3]. "Zezinho, no cavaquinho, Deraldo, no tambor, eu eu no violão, formavamos o Trés e Meio. O meio era Luiz, o irmão menor de Zezinho, que fazia o ritmo no pandeiro. [..] No carnaval, nós saiamos com uma roupa escolhida pra todos: calça branca, camisa azul marinho, sapato branco, chapeu de metal, essa coisa do carnaval. Um amigo, que trabalhava no jornal A Tarde, dava notas: 'Nos domingos, na programação da Radio Comercial, o conjunto Trés e Meio' " Dorival CAYMMI, apud S. CAYMMI (2001). A turma costumava alugar um carro conversivel (ver foto a direta, com Caymmi sentado no banco tráseiro) [4] para sair brincando no carnaval. Outros amigos se juntaram à essas atividades semi-profissionais com espírito de farra [5]. CAYMMI (2001) menciona, além de Eduardo Perez, Maurlílio e Maltés, amigos do Barbalho, onde morava a familia Caymmi, também um certo Adolfo do Nascimento, o Dodô [6]. De acordo com a autora, Dodô teria sugerido ao amigo Dorival de equipar o
violão dele com um alto-falante, integrado na caixa
acustica, para dar um maior
alcance ao som, processo que teria implicado a fazer furos no instrumento, o que Dorival nao quis arriscar [7].
Em 1935, quando o Trés e Meio recebeu o seu primeiro cachê formal, da Radio Sociedade, no valor de 40 mil reis, a banda ainda continuava na formação original além de receber de amigos para participações especiais [8]. Nesta altura, haviam se juntado a turma Humberto Porto (que viria ser conhecido pela composição "A Jardineira", em parceria com Benedito Lacerda), Luiz Paraguassu (futuro correspondente do Jornal 'O Globo' na Bahia) Fernando Pedreira (mais tarde locutor de rádio).
De acordo com GOES (1982, 2000) quando Caymmi tomou rumo ao Rio em abril 1938 e o Trés e Meio original se desfez, Dodô teria fundado uma nova banda, preservando a denominção Trés e Meio, com sête integrantes, incluindo, além de Druvaltério Carvalho, Milton Lima, Rupiara Ferreira Santos, Reginaldo Silva e Luizinho da Flauta (GOES 1982, 2000), também Osmar Macêdo, o seu futuro parceiro do pau elétrico e da Fobica, o qual havia conhecido durante um show de radio [9].
NOTAS
[1]
Stella Teresa Aponte CAYMMI (2001) Dorival Caymmi: o Mar e o Tempo Editora 34 Ltda., São Paulo, SP O livro da neta de Dorival Caymmi, de 2001, atualmente é tido como a fonte prinicipal sobre a vida do compositor e o conjunto Trés e Meio. A foto mostra Deraldo, Zezinho e Luis, parados, tocando surdo, bandolim e panderio, respetivamente, e Dorival Caymmi, ajoelhado, segundo à esquerda. Algumas fontes citam o ano 1932 como data da fundação do Trés e Meio. CAYMMI (2001) não cita datas ao respeito, mais menciona que Dorival Caymmi (1914-2008) tinha 18 anos quando cantou a musica 'Adeus' num show de rádio do Trés e Meio, o que de fato indicaria o ano 1932, ou até uma data anterior. [2] "Foi quando surgiu a idea de montar um conjuntinho para o carnaval, o Trés e Meio, a maneira do Bando da Lua. A gente fazia o treino, organizava o repertório...." (CAYMMI, 2001, p.90), o que indicaria o ano 1932, ou até uma data anterior. Dorival CAYMMI, apud Stella T.A. CAYMMI (2001), p.90 [3] CAYMMI (2001), pg. 90, cita uma nota do Estado da Bahia: "O grupo regional Tres e Meio continua em plena forma, sob a orientaçao de J. Rodrigo de Oliveira, que está organizando um programa para o dia 30, comemorando o aniversário de D Cayimi." [4] Foto em CAYMMI (2001), p.93 Corso na Bahia: em conversiveis alugados, Dorival (sentado no banco de traseiro), Deraldo (segundo a esquerda), e seus amigos saiam devidamente paramentados -camisa azul marinha, calça e sapatos brancos, chapeuzinho de metal-para brincar e tocar no carnaval de Salvador nos anos 30. (CAYMMI 2001, p.93). Infelizmente, CAYMMI (2001) não identificou as outras pessoas posando nessa fotografia. Note se que um dos rapazes segura um instrumento de percussão, o que ainda aumenta a semelhança com o conceito de 'palco movel', da Fobica de Dodô e Osmar. [5] Se não havia cachê, não havia problema. ele tocaram de graça mesmo. Por timidez, Dorival ainda não cantava suas composições. Só mesmo os mais íntimos sabiam que o rapaz compunha. CAYMMI (2001), p.92 [6] CAYMMI (2001), p.90 [7] O amigo Dodô (Adolfo do Nascimento) chegou a sugerir que Dorival fizesse um furo em seu violão e pusesse um alto-falante dentro da caixa do instrumento para que o som tivesse um alcance maior. Já era uma sementezinha do que viria ser o trio elétrico no caranval baiano, uma invenção do mesmo Dodo, e de Osmar Macedo, em 1950 - inicialmente o trio elétrico usava um velho Ford 1929 e dois altofalantes. Mais o rapaz não quis saber de fazer furo em seu violão. Se fizesse, talvez anticipasse em alguns anos o pau eletrico, a chamada guitarra baiana. CAYMMI (2001) p.90 O fato que Dodô ter sugerido, provalmente por volta de 1934/35, talvez até antes, de integrar um alto-falante na caixa acústica do violão de Dorival Caymmi é um detalhe precioso, que mostra que Dodô já estava cheio de ideias relacionadas ao desvolvimento de sistemas de amplificação para instrumentos acústicos, anos antes der ter construido o pau elétrico no início dos anos 1940. CAYMMI (2001) não confirma, porém, em maneira alguma, a ideia de GÓES (1982, 2000) de Dodô ter sido um membro fixo do conjunto regional Trés e Meio, muito menos de ter sido entre os membros fundadores, como alguns acreditam. [8] De acordo com Fred de GÓES (1982, 2000), teria também existido, em algum momento antes da saida de Caymmi para o Rio de Janeiro em 1938, uma configuração do Trés e Meio, formada por Dorival Caymmi, Zezinho Rodrigues, Alberto Costa, e Dodô. Outras fontes mencionam ainda Eduardo Nery como membro fixo do Trés e Meio. Em CAYMMI (2001), que acompanha o trajeto do conjunto Trés e Meio detalhadamente, faltam referências a uma tal configuração. (Para o parágrafo que menciona Dodô, ver a nota 7). Caso teria existido, seria mais por 1935-38. [9] Com alguma probabilidade, teria sido na Radio Sociedade, que a partir de 1937 era a única emissora de rádio em Salvador. JORNAL A TARDE (Salvador, 3 mar. 1937) 'Em março de 1937, a Rádio Sociedade não tinha mais concorrentes locais, devido ao fechamento da Rádio Clube e da Rádio Comercial por não satisfazerem 'condições regulamentares'. citado por Michael IYANAGA & Pablo Sotuyo Blanco BLANCO Os "Programmas de Studio" da Rádio Sociedade no contexto ploítico baiano de 1939-1942. Reflexoes sobre a sua utilidade e necessidade Anais do XVII Congresso da ANPPOM UNESP, SP |