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Jubileu de Prata (1975)
 
27-02-2010 22:58corneta

A canção, a primeira faixa do disco homônimo de 1975, refere-se à comemoração dos 25 anos de criação do Trio Elétrico. O verso inicial estabelece a data de fundação do Trio, instituída por Osmar Macedo no ano de 1950. Entoado em forma de introdução, em compasso ternário, lento, coloca de forma sintética no tempo e no espaço o fenômeno do Trio Elétrico, consequência direta, embora não imediata, do gesto de  Dodô e Osmar, que consistiu em desfilar a "Dupla Elétrica" num circuito não autorizado (percurso do 'corso'), em um veículo próprio (fobica), com um sistema de amplificação inovador, tocando um rítmo e um repertório inesperado (frevos pernambucanos, músicas "frevadas") com instrumentos completamente estranhos ao caráter e ao estilo original dessa música.

Jubileu de Prata (Dodô - Osmar)

Trio Elétrico Armandinho, Dodô & Osmar
Vocal: Moraes Moreira

Há 25 anos
Em Salvador surgiu
O frevo, numa fobica
E o famoso trio

Jubileu de prata
Luz em cascata
Explosão de alegria
Multidão na folia
Por todo lado
De fio a pavio
O frevo eletrizado
A loucura do trio

No carnaval da Bahia
Vou trieletrizar

É o lugar no mundo inteiro
Que se brinca sem dinheiro
Basta só existir
E na vida passar
O trio elétrico de Dodô e Osmar
No carnaval da Bahia
Vou trieletrizar


"Luz em cascata, explosão de alegria, multidão na folia, a loucura do trio". Descrevem formas e estados emocionais produzidos pelo folguedo recém-inventado. Osmar, Dodô, o velho Armando, enfim todos os envolvidos na pândega, souberam muito bem captar o anseio da população por uma forma de divertimento carnavalesco que fosse mais pessoal e viabilizasse também a interação lúdica, através do "pulo" coletivo. Eram muitas surpresas num acontecimento só, mas o povão, inebriado, aderiu completamente à subversão dos esquemas preestabelecidos, e até empurrou o calhambeque, quando, já na avenida, entrou definitivamente em pane.(*)

"Frevo eletrizado" é a denominação atribuída ao estilo de música executada pelo Trio, em rítmo de frevo, porém com instrumentos de cordas dedilhadas e percussão, ao invés de metais, madeiras e percussão, como nas orquestras pernambucanas. Aí já tínhamos três instrumentistas. O detalhe é que o som do cavaquinho (afinado como um bandolim ou violino), do triolim - violão tenor (com suas 4 cordas e extensão mais grave) e do violão (geralmente com a sexta corda afinada um tom abaixo), era processado e amplificado mediante um sistema totalmente artesanal, o que produzia o timbre característico, único da formação instrumental compacta, tendo como voz solista o cavaquinho, logo duplicado e até triplicado, permitindo a realização de contrapontos e ornamentos, duetos e diálogos aravés das frases musicais.

Trielietrizar, portanto, é um verbo criado a partir do fenômeno Trio Elétrico, significando que os três instrumentos de corda, mais o sistema de processamento e amplificação do som e mais a eletricidade natural do frevo, com seu rítmo frenético, catalizavam as energias, transformando qualquer repertório de pulso binário em música trieletrizada.

Quanto à afirmação:
 
"É o lugar no mundo inteiro
Que se brinca sem dinheiro
"

Está distante a possibilidade de ser aplicado aos dias de hoje, uma vez que atualmente o Carnaval na Bahia implica numa intrincada rede de especulação financeira e marketing, que inviabiliza a poética dos compositores. Já que nem os próprios Trios Elétricos e artistas independentes conseguem penetrar no circuito "do capital", ficando à mercê dos caminhões do governo. A figura do folião pipoca vai sendo pulverizada e substituída pela do turista abonado, que pode pagar com um ano de antecedência, para desfilar em blocos com segurança e mordomias. Os jovens de classe média que podem pagar um carná-carnê, garantem a sua folia junto às grandes estrelas da indústria musical. Os camarotes são a nova versão elitizada e excludente, das cadeiras colocadas ao longo da avenida, nos tempos de outrora.

(*) Curiosamente, passa-se a denominar "Circuito Dodô" e "Circuito Osmar", aos percursos das entidades carnavalescas a partir da década de 90, invertendo-se a lógica da irreverência cometida pelos originais re-inventores do carnaval baiano.


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Roberto Luís Castro

Baiano, músico, (auto)educador, pesquisador, construtor de instrumentos.


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