A canção, a primeira faixa do disco homônimo de 1975, refere-se à comemoração dos 25 anos de criação do Trio Elétrico. O verso inicial estabelece a data de fundação do Trio, instituída por Osmar Macedo no ano de 1950. Entoado em forma de introdução, em compasso ternário, lento, coloca de forma sintética no tempo e no espaço o fenômeno do Trio Elétrico, consequência direta, embora não imediata, do gesto de Dodô e Osmar, que consistiu em desfilar a "Dupla Elétrica" num circuito não autorizado (percurso do 'corso'), em um veículo próprio (fobica), com um sistema de amplificação inovador, tocando um rítmo e um repertório inesperado (frevos pernambucanos, músicas "frevadas") com instrumentos completamente estranhos ao caráter e ao estilo original dessa música.
Jubileu de Prata (Dodô - Osmar)
Trio Elétrico Armandinho, Dodô & Osmar
Vocal: Moraes Moreira
Há 25 anos
Em Salvador surgiu
O frevo, numa fobica
E o famoso trio
Jubileu de prata
Luz em cascata
Explosão de alegria
Multidão na folia
Por todo lado
De fio a pavio
O frevo eletrizado
A loucura do trio
No carnaval da Bahia
Vou trieletrizar
É o lugar no mundo inteiro
Que se brinca sem dinheiro
Basta só existir
E na vida passar
O trio elétrico de Dodô e Osmar
No carnaval da Bahia
Vou trieletrizar
"Luz em cascata, explosão de alegria, multidão na folia, a loucura do
trio". Descrevem formas e estados emocionais produzidos pelo folguedo
recém-inventado. Osmar, Dodô, o velho Armando, enfim todos os
envolvidos na pândega, souberam muito bem captar o anseio da população
por uma forma de divertimento carnavalesco que fosse mais pessoal e
viabilizasse também a interação lúdica, através do "pulo" coletivo. Eram muitas surpresas num acontecimento só, mas o povão, inebriado,
aderiu completamente à subversão dos esquemas preestabelecidos, e até
empurrou o calhambeque, quando, já na avenida, entrou definitivamente
em pane.(*)
"Frevo eletrizado" é a denominação atribuída ao estilo de música
executada pelo Trio, em rítmo de frevo, porém com instrumentos de
cordas dedilhadas e percussão, ao invés de metais, madeiras e
percussão, como nas orquestras pernambucanas. Aí já tínhamos três instrumentistas. O detalhe é que o som do
cavaquinho (afinado como um bandolim ou violino), do triolim - violão
tenor (com suas 4 cordas e extensão mais grave) e do violão (geralmente
com a sexta corda afinada um tom abaixo), era processado e amplificado
mediante um sistema totalmente artesanal, o que produzia o timbre
característico, único da formação instrumental compacta, tendo como voz
solista o cavaquinho, logo duplicado e até triplicado, permitindo a
realização de contrapontos e ornamentos, duetos e diálogos aravés das
frases musicais.
Trielietrizar, portanto, é um verbo criado a partir do fenômeno Trio
Elétrico, significando que os três instrumentos de corda, mais o
sistema de processamento e amplificação do som e mais a eletricidade
natural do frevo, com seu rítmo frenético, catalizavam as energias,
transformando qualquer repertório de pulso binário em música
trieletrizada.
Quanto à afirmação:
"É o lugar no mundo inteiro
Que se brinca sem dinheiro"
Está distante a possibilidade de ser aplicado aos dias de hoje, uma vez
que atualmente o Carnaval na Bahia implica numa intrincada rede de
especulação financeira e marketing, que inviabiliza a poética dos
compositores. Já que nem os próprios Trios Elétricos e artistas
independentes conseguem penetrar no circuito "do capital", ficando à
mercê dos caminhões do governo. A figura do folião pipoca vai sendo
pulverizada e substituída pela do turista abonado, que pode pagar com
um ano de antecedência, para desfilar em blocos com segurança e
mordomias. Os jovens de classe média que podem pagar um carná-carnê,
garantem a sua folia junto às grandes estrelas da indústria musical. Os
camarotes são a nova versão elitizada e excludente, das cadeiras
colocadas ao longo da avenida, nos tempos de outrora.
(*) Curiosamente, passa-se a denominar "Circuito Dodô" e "Circuito
Osmar", aos percursos das entidades carnavalescas a partir da década de
90, invertendo-se a lógica da irreverência cometida pelos originais
re-inventores do carnaval baiano.
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