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Julio Moreno
Procura do tesouro (primeira parte) | Procura do tesouro (primeira parte) |
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Em 1991, quando cheguei à Bahia, era muito dificil achar uma guitarra baiana em Salvador. Meu primero contato com ela foi através das saídas do trio Armandinho Dodô & Osmar, que nunca parou de usá-la. Na esmagadora maioria das outras bandas dessa época, porém, a guitarra baiana tinha sido substituída pelos teclados eletrônicos do axé music, sendo considerada fora da moda e pouco compatível com o padrão estético da hora. Logo fiquei curioso em aprender mais sobre o instrumento. Os exemplares que cheguei a ver ou tocar eram aposentados, guardados em casas de músicos de velha guarda. Atentei-me ao fato de que, mesmo havendo tantos executores qualificados e um repertório fantástico, quase não existiam instrumentos decentes, e muito menos padronizados. Na época, desisti de achar uma boa guitarra baiana para mim, ou alguém que ensinasse alguns dos seus segredos formalmente.
Mas o menos em 1993, Eraldo Melo pediu a Jorge Itacaranha que fizesse uma guitarra baiana com todo o que tinha de melhor, incluindo um acabamento feito pela artista plástica Yurico Kamida. No dia da entrega, um sábado pela manha no atelié de Jorge -aquele que ficava praticamente na beira do mar -foto- estávamos nóss, Eugênio Nobre e eu, enlouquecidos, mandando pentatónicas e bends, e quase não permitimos ao pobre do Eraldo pegar na guitarrinha. Um tempo depois, Marcos Gordo da banda Patrulha deixou uma guitarra baiana na minha mão, modelo Explorer, sem marca, para eu fazer uma regulagem pois ele ia vender. Era um instrumento de acabamento inferior. e não dava muita vontade de pegar. Alguns meses depois, conversando com Aroldo Macêdo, ele me diz que os instrumentos dessa fase de fabricação descontinua, após a morte de Dodô em 1978, são quase protótipos, tentativas feitas por construtores que não tinham a experiência adquirida nem os materiais e ferragens que existem hoje. Em 1996, com o auge do pagode, Jorge Augusto criou alguns protótipos de cavaquinho elétricos. Hoje, modelos de cavacos elétricos, sólidos ou até sem corpo, são comuns, mais na época ainda não havia público para isso. Assim, trés modelos ficaram encostados no atelié. No final do mesmo ano, Alejandro Fuentealba e eu emprestamos um dos desses instrumentos. Viajando com a Timbalada nessa época, ficávamos tocando em todos os lugares para amenizar rotina. Foi com esse instrumento que comecei escrever um caderno com idéias de blues que mas tarde utilizei na musica Pescoço Vermelho (áudio). Três anos atrás, Ramiro Musotto me chamou para tocar Delicado, de Waldir Azevedo, na guitarra baiana. Por sorte, Durval Lelis tinha guardado um modelo Itapoá de Elifas Santana, do qual eu mesmo fazia manutenção a cada tanto, assim que liguei para ele e pedi emprestado (toda vês que ligo para devolver, ele me diz para ficar amaciando ela). Realmente, no primeiro show suei frio, pois, além da melodia ser genial e complexa, a guitarra baiana é um instrumento potente, com muita projeção e tocar esses clássicos dos grandes mestres (que não deixa de ser, como sempre, o melhor caminho para aprender a dominar um instrumento) não é a mesma coisa que tocar licks de rock. A possibilidade de errar é muito grande, pois a escala é bem pequena e o erro fica BEM evidente! Tem também o fato de que muitos dessas grandes melodias de bandolim utilizam cordas soltas, o que acrescenta desafio de abafar algumas cordas na hora certa e até de mudar a digitação de algumas passagens, pois tocando com distorção a guitarra deixa de ser polifônica e em um instrumento com tanta tensão de cordas, a quantidade de "overtones" e altíssima. Acredito que, se você vem tocando guitarra baiana, passa para a guitarra normal sem problemas, mas, se você só vem tocando a guitarra normal, esqueça de conseguir tocar baiana de um dia para outro sem fazer um papelão! (este foi outro fato que alguns guitarristas comentaram comigo, como um dos motivos para o abandono progressivo da guitarrinha). O único cara que conheço que consegue tocar as músicas de GB na guitarra é Eugenio Nobre, um verdadeiro campeão no instrumento, excelente bandolinista. Ele teve um acidente e perdeu mobilidade no dedo indicador. Mesmo assim vocês podem conferir Brasileirinho tocada com os três dedos a mil por hora, em cima de um trio, ou pérolas como Jazzquifrevo, no seu canal do YouTube. Toco guitarra desde os meus 11 anos (1976) e sempre me interessei pela origem a guitarra baiana e os avanços em matéria de hardware, eletrônica, e sistemas de tempero. Ouvindo as historias sobre Dodô e Osmar, comecei a juntar o que já sabia e a pesquisar um pouco mais. Foi assim que cheguei a mandar há muitos anos atrás para o www.emando.com (site dedicado exclusivamente ao bandolim elétrico, onde nem sabiam que existia toda uma tradição aqui na Bahia!) as fotos da guitarra de Eraldinho, do bandolim semi-sólido de 10 cordas de Armandinho e fotos de um trio elétrico que está há muitos anos no site. Depois de 30 anos de fanatismo pela guitarra, decidi botar tudo num site dedicado especialmente à guitarra baiana separado do blog de guitarra que está no www.juliociegomoreno.com, como fonte de informação e referência e aberto a todos os que quiserem colaborar. Esta história vai continuar, e também vou entrevistar músicos que foram testemunhas de épocas gloriosas da guitarra baiana e que certamente irão voltar. Julio Moreno
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Guitarrista argentino, morando em Salvador, Bahia desde 1991. Tocou com Timbalada, Daniela Mercuri e Crac!, entre outros, e ficou no Spotlight do Guitar Player '99. 